Mondego: Da Artéria Comercial ao Isolamento — Um Plano para Devolver a Navegabilidade, o Futuro e a Dignidade ao Distrito
Durante séculos, o rio Mondego foi a principal via de comunicação entre as populações do interior e a costa, com a emblemática Barca Serrana no centro da atividade económica e comercial de toda a bacia hidrográfica. Esse papel histórico foi progressivamente sufocado em duas fases: primeiro, com a chegada do caminho de ferro, mais rápido e independente das marés; depois, com as obras de regularização do leito que desviam o rio, soterraram o antigo Porto do Carril e criaram valas de regadio paralelas que funcionam como uma barreira física, isolando as margens que outrora o rio unia.
O paradoxo é evidente: a infraestrutura que protegeu a região contra as cheias acabou também por cortar a navegabilidade. O ADN – Alternativa Democrática Nacional (Distrital de Coimbra) defende uma visão integrada que una a segurança das populações, o combate ao assoreamento e a reativação da economia azul do nosso estuário.
- Diagnóstico e Eixos Técnicos
Desassoreamento e Realidade Náutica
O setor náutico da Figueira da Foz debate-se com “problemas de assoreamento constante do rio”, o que obriga a depender da maré cheia para a travessia. Embora as barragens a montante (Aguieira, Raiva e Fronhas) retenham grande parte dos sedimentos de 56% da bacia, o troço final continua a assorear devido à erosão de margens e afluentes ainda por regularizar.
O Alerta Crítico da Ponte Vila Verde–Alqueidão
A construção da nova ponte Vila Verde–Alqueidão (integrada na EuroVelo 1), com tabuleiro a 4 metros de altura e conclusão prevista para novembro, ameaça desferir um golpe fatal no turismo náutico. Os operadores alertam que esta cota bloqueia definitivamente o acesso rio acima a embarcações de vela, recreio ou turismo de médio porte — deixando passar apenas barcos pequenos (pesca da lampreia) e apenas em maré alta, cortando o acesso a Montemor-o-Velho. A janela para exigir uma secção móvel ou cota mais alta é estreita, mas a pressão pública é urgente.
Cheias do Baixo Mondego e a Alternativa a Girabolhos
O “drama da planície” e as cheias recentes (agravadas pela depressão Nils, que levaram a Aguieira a 99% da capacidade e romperam o dique em Casais) expuseram o esgotamento do sistema atual. A Ordem dos Engenheiros recomenda que a Aguieira opere a cotas mais baixas para absorção de cheias — o que, por si só, exigiria um reservatório complementar como Girabolhos. No entanto, o ADN defende uma alternativa técnica rigorosa e sustentável:
- Gestão otimizada e preventiva das cotas da Aguieira;
- Conclusão da regularização do rio Ceira e obras pendentes no Arunca;
- Manutenção rigorosa de diques e desassoreamento dirigido, sem impor novas barragens contestadas.
- Visão Estratégica: Reorganização Portuária e Urbana
Para além da navegabilidade fluvial, a ADN defende uma reconfiguração ambiciosa da relação entre a cidade e o rio, realojando e modernizando as valências portuárias de forma distinta em cada margem:
- Na margem esquerda: Nascerá de raiz um novo porto comercial equipado com moderna ligação ferroviária direta à Linha do Oeste, potenciando a capacidade logística da região.
- Na margem direita: Nascerá um novo porto de atracagem dedicado a cruzeiros de média dimensão — uma infraestrutura atualmente inexistente na nossa costa. Em simultâneo, toda a frente ribeirinha será devolvida em pleno aos figueirenses e visitantes para fins de lazer, cultura e habitação, capitalizando o turismo de excelência e a qualidade de vida urbana.
- Articulação Ferroviária: Linha do Oeste, Linha da Beira Alta e Metro Mondego
O centro intermodal da margem esquerda ganha sentido pleno como o novo nó ferroviário da região. A ADN defende:
- A reativação da Linha do Oeste e da Linha da Beira Alta, com serviços para Alqueidão, Paião e Marinha das Ondas, incluindo paragens estratégicas junto às Termas e ao Convento de Seiça a partir do terminal intermodal;
- A interligação da Linha da Beira Alta com o Metro Mondego, ligando diretamente a Figueira da Foz a Coimbra por via ferroviária.
Fecha-se assim o triângulo virtuoso entre o porto de cruzeiros, o comboio regional e a capital de distrito, devolvendo ao terminal o papel histórico que a antiga Barca Serrana desempenhou séculos atrás.
- Plano de Ação e Calendário Estratégico
Prazo | Ação Proposta | Alvo / Entidade |
Imediato (até novembro) | Exigir publicamente o estudo de impacte na navegabilidade da ponte Vila Verde–Alqueidão; propor secção móvel ou cota revista antes da conclusão da obra. | Câmara Municipal da Figueira da Foz |
Curto prazo | Articulação próxima com operadores do setor náutico e associações locais, salvaguardando os interesses da economia do rio. | Setor náutico e turístico |
Médio prazo | Levantamento técnico da cota de todas as pontes entre Coimbra e a Foz, cruzando com maré e perfil do leito para definir embarcações viáveis (ex. calado raso/elétricas). | APFF / Infraestruturas de Portugal |
Médio prazo | Retomar as obras de aprofundamento do canal do porto com plano de mitigação para a pesca local. | APA / APFF |
Longo prazo | Resolvendo o impasse com a APA. | APA / Governo |
Longo prazo | Concluir a regularização dos rios Ceira e Arunca e reforçar a manutenção de diques como alternativa técnica a Girabolhos. | APA / Governo |
Longo prazo | Integrar o corredor navegável na narrativa de mobilidade do distrito, a par da reativação ferroviária defendida pela ADN. | ADN – Distrital de Coimbra |
Visão de futuro | Estudar a transferência do porto comercial para a margem esquerda, criando um centro intermodal e terminal de cruzeiros. | APFF / Município / Governo |
- Conclusão e Apelo
O Mondego uniu, durante séculos, as Beiras à Figueira da Foz. A ADN – Distrital de Coimbra recusa que essa ligação se perca definitivamente por omissão de projeto numa empreitada em curso. Apela-se à Câmara Municipal da Figueira da Foz, à Administração do Porto da Figueira da Foz e às demais entidades competentes que assumam a navegabilidade do rio como um objetivo estratégico do distrito.
A ADN disponibiliza-se para acompanhar tecnicamente este processo e continuará a dar voz a esta causa em prol do desenvolvimento económico, ecológico e social da nossa região.
Notas e fontes de referência: Diário de Coimbra (24 de setembro de 2026); comunicado da Ordem dos Engenheiros (28 de julho de 2026); Notícias de Coimbra; Academia das Ciências de Lisboa (“Regularização Fluvial do Baixo Mondego”, Armando Lencastre); registos históricos sobre a Barca Serrana e o Porto do Carril.
Figueira da Foz, 29 de setembro de 2026

