Gaia paga como sócia. O Porto viaja de graça. Quem decidiu isto tem nome e cronologia.
Há um número que deveria envergonhar a Área Metropolitana do Porto: Gaia é a segunda maior accionista dos STCP (12,04%) e o concelho pior coberto da rede (42,77% da população a 350 metros de uma paragem). O Porto tem 53,69% do capital e 99,98% de cobertura. Em linguagem clara: quem manda tem rede; quem é o segundo a pagar fica de fora de quase seis em cada dez gaienses.
Isto não caiu do céu. Foi negociado, assinado e contratualizado em grande parte por dirigentes do Partido Socialista, que dirigiam a Área Metropolitana do Porto e os Transportes Metropolitanos do Porto, e agora está a ser maquilhado pelos senhores do PSD, que presidem as mesmas entidades, alinhando e subscrevendo as negociatas, com a agravante da gratuitidade… mas só para quem mora no Porto.
Saiba TODA A #VERDADN – Quem se sentou à mesa?
Em 28 de Agosto de 2019, no Museu do Carro Eléctrico, o então primeiro-ministro António Costa (PS) apresentou a intermunicipalização da STCP como “reforma do Estado”. Assinaram o memorando o Governo — com o ministro do Ambiente João Pedro Matos Fernandes (PS) —, a AMP e os seis municípios. O decreto-lei n.º 151/2019, do Governo Costa, transferiu as acções do Estado para as câmaras e fixou o critério que ainda hoje dá ao Porto a maioria absoluta. Costa assumiu a dívida histórica e entregou a empresa “estabilizada”. Estabilizada para quem? Para o accionista de 53,69%. Gaia recebeu 12,04% e um mapa com buracos.
Do lado local, o desenho foi fechado pelos autarcas de então: Rui Moreira (independente, com apoio PSD/CDS) no Porto; Eduardo Vítor Rodrigues (PS) em Gaia e, durante anos, presidente do Conselho Metropolitano da AMP; Marco Martins (PS) em Gondomar. A AMP lançou a UNIR. A empresa que deveria fiscalizar essa rede — a Transportes Metropolitanos do Porto (TMP) — só nasceu em 2025, “com cinco anos de atraso”, nas palavras do próprio Marco Martins (que aguardava saltar da Câmara de Gondomar, para o poiso de presidente, que conseguiu durante 11 meses).
Eduardo Vítor Rodrigues(PS) esteve na posse. Marco Martins (PS) admitiu problemas graves a sul do Douro, e foi destituído em Janeiro de 2026 por decisão política do novo Conselho Metropolitano, já sob Pedro Duarte (PSD). Entrou Nuno Sousa, ex-vereador em Gaia. A UNIR, no lote Gaia–Espinho, continuou a ser o lote que falha: 26.9% de incumprimento de viagens em 2025.
Ou seja: Costa desenhou a transferência com maioria para o Porto. Rodrigues e a AMP empurraram o resto do território para um concurso privado de sete anos. Martins herdou a fiscalização tarde e o lote que não cumpre. Duarte herdou o trono do Porto e da AMP e, em vez de corrigir a geometria, vendeu o passe grátis aos portuenses.
O que Gaia paga — e o que Gaia recebe?
O contracto de serviço público da STCP (2025–2034) obriga os seis municípios a compensações de 334 a 344 milhões de euros em dez anos.
- Porto: cerca de 180 milhões (16 a 19 milhões por ano).
- Gaia: cerca de 49 a 51 milhões (3,9 milhões em 2025, a subir para cerca de 5,7 milhões no fim do contracto), a que acresce IVA nas contas da assembleia.
- Matosinhos: 44,3 milhões.
- Valongo: 15,1 milhões.
No início de um mandato recente, Gaia pagava zero em transportes. Passou a quase dois milhões só na STCP num ano, com mais de 50 milhões na década. Esse dinheiro sai de estradas, escolas, habitação e oficinas.
A contrapartida, no relatório de 2024 da STCP:
Gaia é a segunda a pagar e a última a ser servida. Quase 57% dos gaienses estão fora da área de influência da empresa de que o município é dono.
As linhas STCP com operação relevante em Gaia são, no essencial, a série 900: 900, 901, 902, 903, 904, 905, 906 e 907, mais serviços de madrugada como a 10M, 11M e 12M. Oito carreiras diurnas numeradas para um concelho de mais de 300 mil habitantes e 168 km². O Porto tem dezenas. Há prolongamentos (900 até Francelos, ajustes na 903 e 905). São remendos. Não são rede.
Contas simples: se Gaia paga cerca de 50 milhões em dez anos por 43% de cobertura, está a financiar um serviço que não chega a mais de metade da sua gente — e ainda financia, via AMP, um lote UNIR que cancela mais de um quarto das viagens.
A UNIR: o plano B que virou pesadelo
Quando a STCP não chega, a AMP empurrou o resto para a UNIR. O concurso foi lançado em 2020 pela AMP de Eduardo Vítor Rodrigues (PS). Os contratos de sete anos, cerca de 312 milhões de euros no total, foram adjudicados pela Comissão Executiva Metropolitana e assinados em 2022–2023, com visto do Tribunal de Contas em Abril de 2023. A operação arrancou a 1 de Dezembro de 2023. Quem subscreveu este modelo foram os 17 municípios da AMP, então com maioria de câmaras do PS, no Conselho Metropolitano que Rodrigues presidia. Não foi um acidente técnico. Foi uma escolha política: em vez de alargar a STCP com justiça, entregou-se o território a cinco concessionários privados.
O lote de Gaia e Espinho (lote 4) ficou com a Transportes Beira Douro / Auto Viação Feirense, por 59,8 milhões. Os outros lotes foram para a Vianorbus (Barraqueiro/Resende), a Nex/Alsa, a Porto Mobilidade (Transdev e parceiros) e a Xerbus. Em Gaia, o serviço não “teve um arranque difícil”. Em 2025, o cumprimento de viagens nesse lote foi de 73,1%. Nos outros lotes passou dos 98%. A média da rede caiu para 91,4% por causa de Gaia e Espinho. A satisfação foi a mais baixa da AMP. Centenas de reclamações concentraram-se no concelho.
O próprio Rodrigues chegou a dizer que a região não pode “aguentar sete anos disto” e que o operador “cumpre ou vai embora”. A TMP — criada só em 2025, “com cinco anos de atraso”, nas palavras de Marco Martins (PS), que a presidiu onze meses até Duarte o destituir — admitiu “problemas graves” a sul do Douro. A fiscalização nasceu depois do contracto. O incumprimento nasceu com o contracto.
Isto confirma o diagnóstico: os concelhos fora do núcleo da STCP foram atirados para privados que, em Gaia, não funcionam. Não é hostilidade ao privado. É um contracto de sete anos, assinado pela AMP do PS, que falha no concelho mais populoso a sul do rio, enquanto Gaia paga a STCP por 43% de cobertura e a UNIR por um serviço que não cumpre.
Gratuitidade no Porto: o ataque de Pedro Duarte à igualdade metropolitana
Desde Julho de 2026, os residentes no Porto com Cartão Porto. andam de graça na rede Andante em toda a AMP: metro, STCP, UNIR, CP urbanos. Custo: 20 a 25 milhões de euros por ano, pagos pela Câmara do Porto. Um portuense atravessa a ponte e viaja de graça em Gaia. Um gaiense, no mesmo autocarro, paga.
Pedro Duarte (PSD) é, ao mesmo tempo, presidente da Câmara do Porto e presidente do Conselho Metropolitano da AMP. Usa o primeiro cargo para oferecer o que o segundo cargo deveria tornar comum — e admite que os outros municípios “não têm condições orçamentais” para copiar a medida. Tradução: o Porto compra a fotografia da gratuitidade; Gaia paga a STCP, aguenta a UNIR e vê o vizinho viajar a custo zero no seu território. Duarte até disse que “gostava” que a medida fosse metropolitana. Gostar não paga carreira em Avintes, Valadares ou Lever. Decidir, isso ele já fez: grátis para o seu eleitorado; a factura é para os outros.
Não há serviço de qualidade que seja grátis. Há serviço pago por outrem e anunciado como direito. A gratuitidade sem oferta fiável é marketing tarifário. O tempo dá razão a quem recusa essa ilusão.
A posição: STCP da AMP, autarquias sócias de verdade
O ADN o que pede não é um slogan. É inverter a hierarquia que Costa legalizou, a rede publica de transportes que Eduardo Vítor Rodrigues e a AMP destruiu. E a rede que Duarte agora explora a seu belo prazer!
A Área Metropolitana deve ter a STCP como operador público de referência. Os concelhos aderentes devem ser societários com capital, voto e verba — não é pagar 12% da cota e ter uma cobertura quase inexistente dos STCP em Gaia. As oficinas municipais de Gaia devem entrar na manutenção da frota. As carreiras devem ser criadas por quem as paga, não pedidas de chapéu na mão ao accionista maioritário. A UNIR, no lote que falha, não é destino. É o plano B de quem bate sempre no peito, “em defesa da causa publica”, mas na hora H, o Partido Socialista, não resiste a uma negociata privada.
Enquanto o Porto tiver a maioria, a rede e o passe grátis, e Gaia tiver a segunda factura e o último mapa, chamar a isto “transportes públicos metropolitanos” é propaganda. Tem nomes de autores, tem partidos, tem cargos. E tem a responsabilidade de governações PS e PSD.
Tem de responder pelo que Gaia paga e pelo que Gaia não recebe.

